12 junho 2011

HUMOR OFENSIVO É A MÃE !!!


O Jornal “O Globo” de hoje traz matéria sobre o chamado  “ humor sem limites”.
Claro que como toda linha editorial, ouve quem lhe interessa para direcionar a matéria aonde quer.

Rafinha Bastos e Danilo Gentilli, pivôs de casos recentes de “mau humor”  , recusaram-se à entrevista. No que penso, fizeram muito bem.

Já postei  anteriormente, duas vezes, posicionando-me sobre o assunto. Soube até por fofoqueiros de plantão que o  jovem e amado Adnet teria ficado magoado comigo.  Se verdade, isso passa. Ele é o vitorioso. Eu, já sênior,  morro logo e ele vai viver muito ainda, graças a Deus.

Mas , tirante a análise econômica e marxista que fiz sobre o surgimento deste novo humor, a questão é muito simples:
Os EEUU , sociedade sabidamente  doente e pervertida, é hoje origem e berço embalado do humor de insultos e ofensas. As pessoas lá,  como diz o próprio “O Globo” riem um riso culpado com esse tipo de humor.

Nossa sociedade tupiniquim pode ter seus desvios e mazelas, mas ainda não chegamos ao nível doentio e malfadado da sociedade americana.  Com um pouquinho mais de esforço chegaremos lá. O PIG; o assassino de Realengo; malafaias e bolsonaros que o digam.

Chegaremos. 

Não precisa de análise para entender o “novo mau humor” brasileiro: se os EEUU ditam nossas roupas; nosso fast food; nossa língua; nossa medicina; nossas academias; nossa ética política – nossos lobbys ; nossa farmacologia;  porque não ditariam também o nosso humor?

O  Brasil de Oswald e da Semana de 22 começou a ser desconstruído durante a Ditadura, com o triste acordo MEC-USAID. Complementa-se com a economia neo-liberal.

A Mãe Pátria violada em 64 continua parindo os frutos deste estupro.

Portanto, não sou otimista em relação ao futuro do humor brasileiro. Veremos de agora em diante muito humor insultuoso e ofensivo, agradando sobretudo a classe média, neurótica, imprensada,  entre classes e desejos de consumo e destruição. 

Nos EEUU também existem pessoas, grupos e sociedades contra esse tipo de “mau humor”. O capitalismo se alimenta dos dois lados, como de costume.

Em próximo post pretendo expor  como as piadas – hoje consideradas cafonice – fizeram parte das nossas lutas de independência e libertação.

CENAS DE UMA DITADURA - 08 - A BELA VIRA FERA E DESAFIA A POLÍCIA


Naqueles dias de agosto de 1964, o DOPS e as Forças Armadas estavam muito mais preocupadas com uma guerrilha que estava sendo preparada pelo Sargento Sá Roriz a mando de Leonal Brizola, na Serra do Caparaó em Minas Gerais, que com meia dúzia de adolescentes idealistas na Ilha do Governador. 

Na verdade tudo que eles desejavam era encerrar nosso assunto para dedicarem-se  a fundo na perseguição ao Sá Roriz. Para isso o Leo Leoni, ligado à guerrilha do Caparaó,  já havia sido preso.

Depois de uns dias de “molho”, onde  por segurança eu parecia haver pegado a peste – não podia aproximar-me de ninguém, nem alguém de mim... percebi que não era seguido e então reuni parte da base numa praia da Ilha, e expus o que o DOPS queria: que fôssemos lá para encerrar o assunto. Eles achavam que a gente era burro e nós achávamos que eles eram espertos.

Por um momento cheguei a pensar que seria possível ir até lá. Iríamos eu, o Raposo com seus 15 anos, e a Bela com seus dezesseis anos.Eles veriam os “três  mosqueteiros” da Revolução e nos liberariam, inofensivos que pareceríamos diante da ameaça militar de Caparaó .

Foi quando a nossa musa, origem das nossas fantasias mais despudoradas, e que aqui chamo de Bela, encheu os pulmões de ar e quase gritando disse-nos:
-“ Só vou arrastada! Se quiserem me levar que gastem o dinheiro da gasolina pra vir me buscar! Só vou arrastada! Só vou à força!!!”

A determinação daquela mocinha de dezesseis anos encerrou a reunião praieira, brejeira,  da juventude comunista.

E ninguém voltou ao DOPS, e tampouco o DOPS veio até nós. 

O assunto resolveu-se por si, sequer inquérito houve. Sá Roriz já havia sido preso e a guerrilha desbaratada antes de sequer começar. Eles estavam muito ocupados com peixes graúdos pra prestar atenção nas sardinhas da Ilha.

Mas ali aprendi a força e a determinação das mulheres na luta. Durante os anos que se seguiram pude observar que elas sempre foram muito mais perseverantes e corajosas que nós.

Este destemor de Bela a levaria anos mais tarde ao pau-de-arara, à tortura e sequelas físicas que até hoje carrega consigo. Mas testemunho aqui, que ela , mulher de fibra, jamais fugiu da luta e sempre desafiou a Ditadura e seus torturadores, até quando os encontrava fora do País.

PRÓXIMO: O “MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO DE VARGINHA”

11 junho 2011

CENAS DE UMA DITADURA - 07 - ENCHI A CARA DE PERVITIN E FUI PARA O DOPS

Escondido na Lapa -  tendo por dicotômica companhia, putos e muçulmanos -  saio para um dos meus passeios matinais , "disfarçado" pelo Aterro. 

Meu tio passa de carro, reconhece-me e vem até mim.  Convence-me a voltar para casa. Garante-me que nada acontecerá. Que basta que eu me apresente ao DOPS e tudo se resolverá.

Naquele tempo os interrogatórios policial-militares duravam às vezes até três dias seguidos, ininterruptos.

Procurei o grande médico do Partido: Dr. João Ramos de Oliveira, hoje nome de um CIEP na Ilha do Governador. Ele me entregou uma ampola de Pervitin, “bolinha” pesada, para que eu tomasse antes do interrogatório e pudesse ficar alerta, não ser vencido pelo cansaço.

Na hora aprazada, acompanhado de meu advogado, Dr. Villaverde, cheguei na esquina da rua da Relação, num botequim em frente ao DOPS, e pedi um cafézinho. Quebrei a ampola e coloquei no café. Bebi, e subimos ao terceiro andar para apresentação e interrogatório.

O advogado não podia acompanhar o depoimento. Fiquei numa sala com os detetives Solimar – um rato raivoso, e Boneschi - um ogro violento. Lá pelas tantas, como eu relutasse em responder, o Boneschi me deu um belo cascudo na nuca que doeu até o dia seguinte. E ainda trouxeram dos porões o cenógrafo Leo Leoni completamente desfigurado pela tortura para saber se eu o conhecia. Claro que o conhecia, do Teatro Jovem de Botafogo. O choque foi muito grande. O rosto do Leo era uma pasta disforme, empapado em sangue. Neguei que o conhecesse. E sua apresentação a mim salvou-lhe a vida, pois até então ninguém sabia que ele havia sido preso. Mais tarde ao sair de lá informei da sua prisão e eles não puderam assassiná-lo.

Com muito jeito, e fazendo-me passar pelo que realmente era: um adolescente quase inofensivo  consegui enrolá-los. Passei como um menino fantasioso, com uma pequena organização ainda mais adolescente que eu, e que me comprometia a trazer todos os membros  para que eles conhecessem e dessem o processo por encerrado liberando a todos já que pelo meu depoimento não passávamos de um bando de crianças brincando de “resistência democrática”. Afinal ainda estávamos em agosto de 1964, ainda havia habeas –corpus, ainda se respeitava menores de idade.
Assim saí de lá bem mais cedo do que esperava.

Aí o Pervitin começou a fazer efeito. Só então. Em toda a sua potência.

Um horror!  Peguei o ônibus  para a Ilha. Uma hora de viagem do Centro  à Freguesia, onde morava.  Em pé no ônibus  lotado, às sete da noite eu queria saltar e correr pela Avenida Brasil. O ônibus era muito lento.Tudo muito lento, meu coração aceleradíssimo. Eu chapado de Pervitin dentro do coletivo, no engarrafamento. Um inferno! Foi pior que o interrogatório. (rs) 

 Só fui dormir no dia seguinte por volta do meio dia. Quando o efeito passou. Nunca mais na vida  provei do tal “Pervitin”.

Próximo: A BELA FUTURA ATRIZ  VIROU UMA FERA E DESAFIOU A REPRESSÃO.

08 junho 2011

SOCIOLOGIA DO COMEDIANTE

Este é o nome de um antigo livro do Jean Duvignaud.
 
Resolvi usá-lo como homenagem ao autor, no meu post de hoje.

José de Abreu por vezes comenta comigo que pessoas que o seguem reclamam que ele fala de política, quando tudo que elas querem saber é das fofocas da TV , ou do seu trabalho como ator.

Comigo também acontece o mesmo.

E muitos colegas e cidadãos mantém a posição de que fazem apenas seu trabalho. “Sou comediante. Faço piada. No resto eu não me meto.”

A partir desta premissa não teríamos política alguma, pois um gerente de banco dedicaria seu tempo apenas a administrar contas, um leiteiro apenas a entregar o leite, um açougueiro apenas a cortar a carne, uma aeromoça apenas a atender passageiros, e por aí iríamos.

É o que dizem do Tiririca: “É um palhaço, devia se limitar a ser palhaço.”

Acontece que cada trabalhador, em qualquer área, cada cidadão , é político, tem o direito e o dever de se meter em política sim, de ter sua opinião política que não se resume apenas ao voto secreto. Mas à prática da política. Ou seja , da vida em sociedade e do posicionamento diante dos fatos que afetam esta sociedade.

O que confundem é que necessariamente ninguém precisa ser um político profissional, mas isso não impede de exercitar sua opinião e sua prática política. Sobretudo aqueles que tem uma vida pública e que por isso são formadores de opinião.

É impossível no decorrer da vida de um cidadão que ele jamais seja chamado a dar sua opinião política sobre qualquer assunto.
E se não o fez até agora é porque está no ganho. Porque a hora que começar a perder vai transformar-se em ativo participante político.

E lembrar que a omissão e o silêncio não significam estar alheio, mas sim concordar e apoiar    os fatos e suas consequências.
Não existe o cidadão puro, que cuida apenas da sua vida. Sua vida está presa a normas e decisões políticas.

07 junho 2011

CENAS DA DITADURA - 06 - OS ÁRABES, A POLOP, OS MICHÊS E EU

Foragido desde a descoberta dos manifestos na minha casa, tinha que encontrar um aparelho onde esconder-me naqueles tempos.  

 Eu conhecia um sujeito, irmão de um grande humorista brasileiro amigo meu, já falecido.  Sabia que ele possuía uma casa na Rua Taylor , na Lapa. E que não tinha ele nenhum tipo de envolvimento com política. Era o lugar ideal. Insuspeito. Procurei-o , disse apenas que havia saído de casa e se podia ficar uns tempos lá. Tudo certo.


Fiz contato com a Polop que me dava assistência política e o equivalente a 2 cruzeiros por  dia. Este dinheiro dava para uma refeição diária. O resto eu me virava no possível. Um pão aqui, um arroz ali...


A casa ficava bem mais pra cima – a Taylor é uma ladeira. Mas era uma casa muito estranha: poucos móveis e muitos rapazes. Muitos. Dormiam lá, apenas. Ao acordar saíam e voltavam de madrugada.  Pude observar com o correr dos dias que muitos tomavam drogas em comprimidos. Só então percebi  que meu amigo tão simpático ,e  eu tão ingênuo, era cafetão de michês masculinos, e  a casa servia de dormitório para eles, já que ficava bem próxima à Cinelândia, “point” ideal àquela época.


Pinóquio percebera que havia caído no Circo do Stromboli!


Mas, que jeito?  Se não me incomodassem... eu também era clandestino e marginal... portanto, que se danasse o mundo.


 Para completar a marginalidade, passei a fazer minhas refeições num restaurante muito barato que ficava também na Lapa, bem próximo da Taylor, num dos becos, bem escondido. Indicaram-me. Vale lembrar  que sou descendente de árabes. E só na segunda refeição percebi que toda a freguesia das casa era composta de emigrantes árabes clandestinos. Todos falando em árabe e ilegais no País. Por isso haviam indicado este ”restaurante” ao jovem com cara de marroquino faminto.


Estava feito: comunista, menor de idade, numa casa de prostituição masculina e comendo num botequim para mouros clandestinos. Não podia achar melhor cenário  para quem gostava de aventuras... que ironia.


Mas de uma coisa estejam certos: a polícia jamais pensaria em me encontrar por ali. (risos)


Para sair à rua passei a usar óculos escuros, uma japona pesada, e  a pentear o cabelo repartido e virado para outro lado. Não mudava nada, mas eu acreditava, que era outra pessoa. 


Tinha notícias de casa: meu pai havia sido detido, mas graças a um tio , ex-pracinha da FEB, e com contatos no DOPS fora liberado no mesmo dia com a condição de apresentar-me , caso contrário ele voltaria para a prisão.
A família tentava negociar isto comigo, diziam que nada aconteceria comigo... e eu me negava. Papai que fosse preso, pelo menos era um pai só. Do contrário, apresentando-me,  seriam quase duas dezenas de pais presos... E eu acusava meu pai de ser um burguês; de nada ter feito para impedir que a Ditadura se instalasse... enfim: uma pequena parte de tudo que um adolescente rebelde e idealista poderia dizer aos seus pais naquela época. 


E assim vivendo , eu, um herói trágico  disfarçado de  “bicha existencialista”, (risos)  dava-me ao luxo de alguns passeios ao sol pelo Aterro do Flamengo...e foi num desses passeios que fui descoberto.


Próximo : ENCHI A CARA DE PERVITIN E FUI PRO DOPS

05 junho 2011

CENAS DA DITADURA - 05 - "O INCÊNDIO NO "APARELHO""

Durante a semana foram rodados as centenas de manifestos da "Frente de Esquerda Revolucionária" – FER .


Ficaram guardados na minha casa. Um apartamento onde eu morava com meu PAi, no Rio, após a morte da minha mãe.  Guardados no forno de um fogão 4 bocas.

Naquela noite de sábado, com meu pai viajando, este “revolucionário” que vos escreve, misto de profissional da luta com adolescente porra-louca, passou a ferro  a calça Levis branca, e partiu para uma farra orgíaca nas areias da Praia da Boa Viagem em Niterói.
Mas, oh, desleixo da juventude: esqueceu o ferro elétrico ligado.

Ao  voltar -   com a aurora -  deparo-me com a cena: guardas civis  à porta do apartamento. Dona Therezinha, a vizinha da LBV foi logo me avisando:
 -“Pegou fogo na sua casa”.

Quis entrar, um guarda me impediu.
-“Estamos aguardando a chegada de outros policiais”.
Mas um dos guardas falava comigo, em tom de brincadeira, usando o yorubá como linguagem. Eu sequer entendia o que falava, mas deduzi que a merda estava feita e que ele queria me avisar.
Pedi ao menos para entrar e pegar um casaco, pois estava frio. Eles confabularam, e o tal que falava uma língua estranha  me deu cobertura dizendo ao outro:
-“Ele é de menor...o negócio não é com ele... Pode entrar. Mas não mexa em nada.”
Entrei e  vi nosso “produto revolucionário” espalhado por toda a mesa da sala e pelas poltronas: centenas de  folhas com o título da FER.

Como o apartamento estava vazio na hora do fogo, os bombeiros reviraram tudo, inclusive o fogão para evitar explosão, e deixaram para o botim policial, os manifestos.
Disse aos guardas, quando percebi o “crime” exposto:
 “- Vou ali na padaria comprar pão, querem?”.
E fugi da cena, da Ilha, e da legalidade.

Meu pai  chegou de viagem , em casa , mais tarde e foi imediatamente preso pelos agentes do DOPS, levado para a Rua da Relação,  como “perigoso subversivo”. Coitado, logo ele que sequer sabia do que se passava e que jamais havia se metido com a resistência à Ditadura. Imaginem o choque .

Para a polícia estava claro que o “criminoso” era ele, não poderia ser o jovenzinho inocente da foto ao lado.

Próximo, “ÁRABES CLANDESTINOS, A POLOP, OS MICHÊS,  E EU”.

04 junho 2011

CENAS DA DITADURA - 04 - PAPARAM A MULHER DO COMPANHEIRO

- “Comi!
- Não comeu!
- Comi.
“ Não comeu!
- Comeu ou não comeu?
- Comi.
- Questão de ordem: se comeu, comeu quando?”

Esta era a acalorada discussão política, revolucionária, que se desenrolava num quarto do “aparelho” com a presença dos 18 militantes da base do partido, e mais o assistente da Direção Municipal, e o enviado especial do Comitê Estadual da Guanabara (o nome do estado naquele tempo) .
Vinte camaradas para apurar se eu havia realmente desrespeitado o dogma partidário de que: “mulher de companheiro é homem”,  e haveria ou não papado a mulher do Raposo.


Raposo era o mais novo membro da base, estava com 15 anos. Um galinho garnizé.Todo emproado , orgulhoso da sua virilidade nascente.
O companheiro havia conseguido cair nas graças de uma “coroa” aposentada  da Panair. A “moça” deveria ter por volta de 55 anos. E ele, 15.Ela morava no mesmo bairro e dava a ele vida boa, e sobretudo sexo para saciar o testosterona que dirigia agora suas emoções.

A Ilha do Governador não era exatamente um subúrbio. Não éramos  “suburbanos”, éramos “ilhéus”. Mas naquele ano de 1965 era muito comum os rapazes de subúrbio, ou ilhéus, saírem sábado à noite para Copacabana pra “ganhar” uma coroa, e quando isso acontecia a volta era triunfal, e a ida se repetiria com endereço certo por vezes incontáveis.

Raposo havia conseguido sua “coroa” na própria Ilha, e estava muito vaidoso de si. Desprezava agora a disciplina stalinista, o centralismo, e os companheiros de base.Achava-se o maior machão do mundo... displicente com as tarefas da militância... era preciso agir para que Lenine , e não Domícia – o nome da senhora -  voltasse a ocupar a sua cabeça.
Coube a mim esta tarefa revolucionária.

Um dia em que Raposo não estava na Ilha, fui eu mesmo à casa da dita senhora, com a desculpa de levar um recado de Raposo,  e sobrou pra mim. Amanheci ao seu lado com café servido na cama e massagem nos pés.

De sunga, da cama  fui à varanda no momento justo em  que Raposo passava na rua e viu-me ,eu, ali, "nas asas da Panair",  amante da amantíssima ex-comissária .
Armou tamanho escândalo sexo-político na base, que foi necessária uma reunião com a Direção Estadual  presente para esclarecer se eu havia comido ou não a dita senhora.
Raposo negava-se a  acreditar no fato. Seria a destruição de sua vaidade viril , a quebra da sua “fantasia amorosa”.

E na “seríssima reunião” que se estendeu por horas  -  mesmo na clandestinidade - para discutir o assunto, Raposo negava que eu pudesse tê-la “papado”. Daí o diálogo :

- “Comi!
- Não comeu!
- Comi.
-  Não comeu!
- Comeu ou não comeu?
- Comi.
- Questão de ordem: se comeu, comeu quando?”

A querela findou-se quando respondi esta pergunta:
- “Comi 5ª feira  á noite. E digo como prova : na hora do orgasmo,ela que tem uma pinta na virilha, chamava-me  de seu “coelhinho” enquanto sussurrava  :Come alface coelhinho, come.”
Prova definitiva.. Raposo queria me encher de porrada e fui suspenso das funções de Secretário Geral da Base , por um bom tempo, o tempo suficiente para que a camaradagem entre Raposo e eu voltasse através da luta diária.

A senhora? Nunca mais a "visitei", menos ainda  o Raposo, traído. Corno aos 15 anos.

(Próximo: INCÊNDIO NO APARELHO)

03 junho 2011

CENAS DA DITADURA -03 - A BELA E AS FERAS

- “Boazuda.
- Gostosa.
- Toda minha!!!”

Isto era o que passava pela cabeça dos 17 varões que compunham a base do Partido na Ilha do Governador ao olharem para a única presença  feminina nas reuniões . 

Aquela belezura que em breve iria tornar-se atriz de novelas e levar  todo os homens do Brasil a terem os mesmos pensamentos.

Nos seus 16 anos ela arrancava suspiros cada vez que falava “Companheiros...”.

No dia seguinte à reunião podia notar-se em todos os olhos as olheiras profundas deixadas pelas fantasias noturnas no quarto, ou no banheiro, de cada solitário jovem pretendente à posse daquela Vênus, que mais tarde seria platinada.

Mas nada além. A moça tinha namorado.

“- Babaca.
- Brocha.
- FDP!!!”

Era o que  passava pela cabeça dos 17 varões acerca do galã da mocinha.

O tal namorado era também da base partidária, da mesma base, e pelos preceitos quase religiosos da política leninista da época, mulher de companheiro era homem. Intocável. Seria um pecador,um burguês pervertido,  aquele que ousasse quebrar este dogma. 

Filha de militar, morava na Vila da Aeronáutica, e entre toda a sua militância sobressaía o fato de nos informar sobre movimentações naquela Base Aérea. Mas quem queria ouvir alguma coisa quando ela falava? Ficava na sala aquele clima de cães ferozes,  amestrados pelo poder sedutor dos seus olhos negros.

Mas, se por um lado era Bela, pelo lado político era uma Fera, como veremos adiante. Corajosa. Determinada. Lutadora. Jogaria para o alto a Venus Platinada e se transformaria numa “passionária” da luta armada, vindo a bestialidade da tortura – pelo nome, Comandante Brilhante Ulstra -  conspurcar  aquele sacrário de formosura.

Próximo: “PAPARAM A MULHER DO COMPANHEIRO”

02 junho 2011

CENAS DA DITADURA - 02 - 'O MIMEÓGRAFO CLANDESTINO"

Em 1964 um mimeógrafo era uma arma poderosa. Quem tivesse um mimeógrafo teria o que hoje seria similar a um computador conectado na Rede. Talvez até mais poderoso, pois poucos eram os mimeógrafos e seus proprietários.

Havia o mimeógrafo a álcool , que imprimia poucas folhas e dava a maior bandeira pois deixava suas mãos manchadas de tinta azul, denunciando o produtor dos panfletos.

E o mimeógrafo a tinta, este ainda mais raro, com tinta preta, mas que podia rodar até 1.000 documentos se necessário.

Procuramos desesperados por um mimeógrafo e conseguimos um a tinta.

Instalado na minha casa – meu pai estava viajando – marcamos a tarefa de rodar os panfletos da “Frente Revolucionária” para aquela noite mesmo.

À meia noite lá estavam: eu, Oswaldo, Cristiano, Pedro, Olímpio e mais uns dois companheiros.
A época era de clandestinidade. Sigilo. Discrição.

Para manter isto o que fizemos nós, os bravos adolescentes na luta contra a Ditadura? Compramos 3 garrafas de Drink Dreher, uns seis maços de Hollywood sem filtro, e uma vara de pão.
À uma hora da manhã os efeitos da bebida já se faziam sentir: gritávamos, cantávamos, discutíamos, as luzes todas acesas...um escândalo enquanto a manivela do mimeógrafo , rangendo, também cantava a sua “Internacional”.

Ali estavam sobre a mesa , afinal, centenas de Manifestos que seriam distribuídos ao povo brasileiro, que quiçá motivado por nossa ação  derrubaria a Ditadura no dia  posterior.

Às quatro da manhã, estávamos nós ainda lá. Manifestos rodados, descansávamos o descanso dos guerreiros.  Cachaça misturou-se à Coca-Cola – “Samba em Berlim”, e a algaravia aumentava.
Eram bebidas e cigarros. Maconha não. Naquele tempo adolescentes como nós sequer sabiam o uso da Cannabis. Este ficava restrito ainda ao mundo dos marginais da Lapa. Ao temido mundo de Madame Satã, cuja figura mitológica nos apavorava quando de incursões à este bairro, em busca de aventuras eróticas.

Baco estava  solto na orgia leninista da Ilha do Governador. Quando afinal, Jesus talvez, ou mesmo Alziro Zarur, manifestou sua ira e repressão sob a forma da vizinha de baixo, Dona Therezinha, militante da Legião da Boa Vontade, que bateu á porta e nos informou que iria chamar a polícia para impedir aquela baderna que não a deixava dormir.

Imediatamente, de revolucionários destemidos nos transformamos em púberos escolares: “Sim D. Therezinha; desculpe Dona Therezinha: a senhora está certa Dona Therezinha...”.

Deprimidos, o grande bode instalou-se no centro da sala, e sob seu poder castrador dormimos pelas poltronas e chão, para acordarmos no dia seguinte e partirmos para uma interminável reunião de auto crítica pela “forma antirevolucionária” com que nos comportamos.

Próximo: “A BELA FUTURA ATRIZ, ÍCONE INTOCÁVEL”

01 junho 2011

CENAS DA DITADURA - 01 - AVANTE KAMARADAS !!!

Assistindo no canal Viva  a  “Anos Rebeldes”, minissérie da Globo em que participei, vem-me à memória os fatos grotescos,  patéticos, ridículos e humanos que me ocorreram, ou dos quais fui testemunha durante os anos da Ditadura Militar.

O cotidiano simples, que não se reporta a torturas, perseguições...não se reporta à parte trágica desta mancha que deveria e deve ser  motivo de vergonha para as Forças Armadas brasileiras.
Em julho de 1964, morávamos  somente eu e meu pai, num apartamento na Ilha do Governador – Rio de Janeiro. Minha mãe já havia falecido anos antes e eu acabara de completar 17 anos. Militante partidário desde os 16.

 Naquele momento tínhamos uma base de jovens insulanos. Em torno de quase vinte membros, da qual inclusive fazia parte uma bela, formosa, irradiante,  adolescente de 15 anos, que alguns anos mais tarde seria o tesão de todo o País através de uma novela cômica. Fora cooptada por mim para o Partido Comunista, o que me vale até hoje ser  carinhosamente  chamado por ela de “Comandante” (risos) .

Perderamos todo o contato com a direção do Partido. Consegui  um contato com a Polop, no centro da Cidade, no Serviço Nacional de Teatro – SNT,  e formamos o que denominamos FER – Frente de Esquerda Revolucionária, que tinha por objetivo ações conjuntas de resistência democrática.
Elaboramos um manifesto de fundação da Frente e nossa primeira ação prática fora imprimir em mimeógrafo o tal manifesto para em seguida distribuí-lo nas portas de fábricas, colégios, etc...

Que tempos !!! Um panfleto impresso em mimeógrafo, distribuído de mão em mão, ante os tempos da blogosfera de hoje.

Achávamos que com o Manifesto partiríamos para grandes ações e  mobilizações, quanto romantismo e idealismo:  18 jovens adolescentes da Ilha do Governador e 6 ou 7 militantes da Polop em todo o  Rio de Janeiro, diante de todo o aparato militar e policial no Estado...kiakiakia

Não gosto de artigos longos na web. Paro hoje por aqui, e amanhã teremos “A NOITE DO MIMEÓGRAFO CLANDESTINO”,   para estes posts que pretendo diários e rememorativos, revelando como já disse,  o lado esdrúxulo dos trágicos  tempos da Ditadura.