05 maio 2018

Os Atentados e o Arqueiro Incógnito





O xerife Chico Propina do condado de Rola Bosta no sudeste da Uberlíndia estava em dificuldades. Os atentados com flechas aconteciam em todo o Reino e ele não tinha ideia de como apurá-los.

As vitimas iam desde carruagens, acampamentos e caravanas até pessoas, como uma moça e seu cocheiro.
Quando a moça e o cocheiro apareceram caidos dentro da carruagem ele passou os trinta primeiros dias da investigação com a hipótese de que eles estavam apenas desfalecidos. Como o condado já estava sobrevoado por urubus – embora as crianças insistiam em chama-los de tucanos -  ele finalmente decidiu que ela e o cocheiro estavam mortos. 
Mas como morreram? Seis meses depois ele afirmou: foram flechadas, porque  era claro:  havia 3 flechas nas costas do cocheiro e mais quatro no rosto da moça. Ele aventou então a hipótese de suicídio. 
Foi então que uma caravana que circulava pelo sul da Uberlíndia foi atacada com flechadas. O xerife de imediato concluiu que os membros da caravana  haviam saltado,  e gargalhando como hienas num piquenique  à base de sanduiches de mortadela,  haviam mirado no próprio comboio num exercício de flecha ao alvo.  Seguiu-se a este um outro ataque a flechadas num acampamento de ciganos mais ao norte da Uberlíndia. O xerife foi lacônico na sua conclusão: ciganos são capazes de tudo para aparecer.  

Após um ano e três meses de investigação Chico Propina  chegara à brilhantes conclusões. 
Primeira: de que eram fechas; segunda: tinham o  mesmo calibre, digo: a mesma  marca artesanal, logo eram provenientes de uma mesma origem. Dois anos e sete meses após o primeiro facto o Xerife Chico Propina declarou à prensa de Gutenberg: estamos no caminho certo, não posso falar nada ainda, mas sem dúvidas são flechas.

Porém após três anos  de investigações, e de tais brilhantes deduções o xerife foi substituído pelo xerife Mauricio Coxinha que prometeu à população que as investigações seriam agora levadas com mais rigor científico e para isso ele começaria o trabalho do zero, ou seja começando por apurar se as vítimas, agora já enterradas e pranteadas estavam mesmo mortas, e se confirmadas as mortes, haviam  morrido apenas para desmoralizar o governo da Uberlíndia, já que eram sabidamente provocadores ligados ao bando de Robin Hood.

Hoje, passados 4 anos do primeiro facto aguardamos a declaração do xerife Maurício Coxinha sobre o caso. Fontes confiáveis já anteciparam que ele vai afirmar que está chegando perto da solução, mas que não falará mais nada porque  a investigação corre em sigilo.

A Uberlíndia é um País atrasado e de má vontade política, se fosse numa tal terra de Santa Cruz este caso já estaria resolvido em uma semana com a prisão dos mortos, da caravana, dos ciganos e de quebra de um nordestino cabeça chata que estava passando por perto e foi parar numa   solitária.



01 maio 2018

Adeus Uberlíndia







A Uberlíndia era um País absurdo, sem solução, pensava o parlamentar com seus botões, e seus botões não era os da sua camisa de seda pura, mas sim seus dois assessores parlamentares: João Botão e Zé Botão. Dois dedicados representantes do lumpesinato religioso e que religiosamente serviam ao parlamentar Zé Canguinha, eleito com três milhões de votos, praticamente toda a massa trabalhadora da Uberlíndia: dois milhões, novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e sete motoristas de Uber e três de Cabify.

Não era séria a Uberlíndia.

Ele havia combinado com um lobista que receberia duzentos milhões de Silvérios (Silvério era a moeda de troca da Uberlíndia) desde que ele votasse pelo fim completo das riquezas minerais daquele rincão, outrora respeitado pelo Mundo e agora reduzido a mero  exportador de estrume para a Somália. Ele votou, o lobista pegou o dinheiro com a mineradora Humboldt and Merckz com sede em Yowa nos Estados Unidos e desapareceu. Soube-se que fora visto tomando sorvete Dagen Haas numa ilha do Caribe. Não era séria.
De outra feita quando o parlamentar era o Ministro da Doença, a Uberlindia tomara-se exemplo Mundial no combate a saúde, só restaram as doenças. As mais ricas, raras e variadas: tuberculose, chicungunha, dengue, baiancu (este importado do Cabukistão), a febre amarela que voltou aclamada pelo público, a febre verde amarela, uma epidemia de coxinhas, e dizem até que em breve seria ressuscitada por lá, a varíola. O esforço do Ministério da Doença para isso era imenso, e com mais uma granazinha aqui, uma propinazinha ali, o surgimento da peste era mais que certo.

Pois não era séria a Uberlíndia: um carregamento de remédios para crianças com necessidades especiais fora combinado que seria desviado para Boston a serem revendidos em valiosos dólares revertidos para os embornais do parlamentar. Os containers que chegassem ao Aeroporto Internacional da Uberlindia, - Aeroporto Covil dos Ratos – deveriam conter apenas supositórios de glicerina. Os ciosos despachantes haviam despachado realmente parta Boston os remédios especiais, ficaram com toda a rana e disseram ao parlamentar:

- Não está satisfeito vá queixar-se ao Bispo.
Esta era a frase mais comum na Uberlíndia:
-Vá queixar-se ao Bispo.

Embora ninguém, soubesse exatamente qual Bispo, tantos que haviam na Uberblindia.
Depois do negócio patriota em Boston,  venderam os supositórios para o Paraguai que os revendeu para as Ilhas Maurício, considerando que todo mauricinho é chegado num supositório. Sem contar que eu duvido que a maioria de nós saiba onde ficam as tais Ilhas Maurício, não fosse o fato de que de quatro em quatro anos, nas Olimpíadas, dois babacas aparecessem carregando a bandeira daquela josta.

E ainda haviam as acusações infundadas contra ele, em tribunais internacionais naturalmente, já que o último tribunal da Uberlíndia havia fechado e virara um food truck de cachorros quentes. O Mundo acusava-o de ter ganhado quatro mansões em áreas ambientais em troca da elevação do gabarito de construção em áreas históricas para 140 andares, feito em comum acordo com a construtora Obrigado Amigo Sogro.
Impossível fazer qualquer negócio honesto na Uberlíndia. Certa feita aguardou por um mês um carregamento de cocaína para uso fármaco familiar, e quando afinal recebeu a encomenda foi uma desonestidade: apenas quilos e mais quilos de pó Royal. A concorrência no Parlamento era desleal, era chute, cavalhada, porrada no saco, puxão de cabelo, o diabo a quatro para ver quem conseguia apropriar-se mais e mais do Tesouro Nacional.

Era desleal: até dedo no rabo acontecia nas sessões parlamentares.

A Uberlindia chegara a tal ponto de decadência, desorganização e desvalorização que por absurdo que pareça,  lá o crime não compensa. Uma delação já não oferecia mais nenhum prêmio, haja à vista que todo mundo delatava todo mundo, a caguetagem virara valor nacional,  ou seja: não valia porra nenhuma,  já que a Uberlindia não tinha o menor valor.

Pois naquele dia, pensando com seus botões, completamente desiludido com a Uberlindia, o nobre parlamentar decidiu: havia ouvido falar de um lugar onde tudo funcionava a como ele sonhava. Só havia, portanto, um jeito para ele exercer a sua vocação com plenitude: abandonar a Uberlíndia e ir morar nesse tal lugar que chamavam...Brasil!

30 abril 2018

O Mula Doida





- Vamos à Greve ! E quem furar a greve está morto!

Este foi o grito de Antonio José Bustamante Cardoso Bispo dos Santos , que é conhecido na comunidade Buraco do Michel  como Mula Doida.

É líder não só desta comunidade , como também de uma importante facção que comanda mais da metade do tráfico de drogas e entorpecentes da outrora maravilhosa vila  de Dom Sebastião de Gothan City.

Dom Sebastião como se sabe é o rei desaparecido de Portugal, que fumou estragado e sumiu nas arábias,  mas que segundo a legisladora  Meméia, a louca de Novo Hamburgo, na verdade fora sequestrado pela Al Jazzera.  Até hoje a população, ou seja os tres milhões de motoristas de UBER, acham que este Rei vai voltar, e  vai afinal trazer a notícia de quem matou Marielle .

Mula Doida tem 19 anos e já é o chefe do tráfico na Cidade, semi analfabeto, este prodígio de empreendedor com tão pouca idade negocia armas no mercado internacional, fala dezoito línguas, conhece o câmbio , a Bolsa de Valores, e influencia sobretudo nas guerras tribais da África e dos Países do Oriente. Claro que os habitantes da outrora bela cidade acham impossível que Mula Doida seja o chefe verdadeiro de tudo isso, mas...vida que segue.

Irritado com a tal perseguição policial, e com o aumento dos valores da extorsão praticada pelos prepostos do reino, um achaque que passara dos limites ele decidiu:  - Vamos entrar em Greve!

Imaginem os senhores: numa terra  onde nem tendo os focinhos arrastados na lama, e retirados todos os seus direitos ninguém faz greve, eis que os traficantes e marginais resolveram optar pela Greve Geral da Maconha, Similares e Derivados. 
- Greve geral! Bocas fechadas! Ninguém mais fuma, cheira, ou se aplica na Cidade. 
Pânico estabelecido. A revolta espalhou-se rapidamente entre os Cidadãos de Bem e as Famílias de Moral da Vila de Dom Sebastião. Não se falava em outra coisa entre os altos executivos das grandes corporações, nas cantinas dos caríssimos colégios religiosos, nos  points a beira mar, e  no Baixo Coxinha que era o lugar mais badalado da Cidade.

Os usuários enlouqueceram, soube-se de casos que alguns que depois de baixar fotos de drogas e similares  engoliram seus smartphones, outros triturararam e tentaram cheira-los .

Afetado o comercio, a bolsa, o turismo , tudo começou a parar na cidade.  Nos bairros abastados as passeatas de protesto tendo à frente um Pato Branco – símbolo do branco que estava em falta na cidade – se multiplicavam nos condominios fechados.
Só havia um jeito: intervenção militar para que Mula Doida fosse preso, a comunidade devastada, e a vida na Vila de Dom Sebastião voltasse ao normalidade.

Feita a intervenção tudo voltou ao normal, e os roubos, homicídios, furtos de carga, roubo d e automóveis, roubo de celulares, estupros, sequestros aumentaram em proporção vertiginosa, e a Vila conheceu um progresso no  crime nunca antes visto,  para lucro total dos verdadeiros Coringas, Pinguins, Lady Shiva, O Porko, e todos os verdadeiros chefões do crime que  de longe assistiam o pé de chinelo Mula Doida ser morto com 139 tiros . Estava salva a Muy Digna e Heroica Vila de Dom Sabastião de Gothan City.

Quanto ao Rei sumido? Dom Sebastião?  Até hoje não apareceu,. E creio que nunca o fará, porque ele não é besta de aparecer por lá pra ser assaltado assim que puser o pé na rua.


29 abril 2018

A Rainha de Copas





- Cortem-lhe a cabeça! Cortem-lhe a cabeça!

Nem mesmo o autor de Alice no País das Maravilhas poderia imaginar que a sua personagem,  a Rainha de Copas,  havia pulado fora da História, ou melhor havia entrado para a História.

Depois de servir como atendente direta de Mussolini fabricando-lhe pizzas de fina massa trabalhadora, rapidamente ascendeu na maldade e foi ser assessora de Hitler, e grande incentivadora da solução final.
Com o fim do nazismo fugiu de jangada para a Argentina onde esteve a serviço dos generais até naufragar com um destroier nas costas das Malvinas. A coisa ruim veio a nado e veio dar com os costados na Uberlíndia.

Ali fixou-se como emigrante ilegal, até que vendendo um dos anéis de ouro que possuía conseguiu um visto de trabalho. Trabalhou muitos anos como aparadora de restos nos centros de tortura da Uberlíndia. Tendo até recebido a medalha de mérito por relevantes serviços prestados à humanidade, se é que se podia chamar de humanos aquele amontoado de gente da Uberlindia que quando não estavam atirando e matando-se uns aos outros estavam completamente anestesiados andando pelas ruas como zumbis com a cara mergulhada em smartphones.

Por uns breves anos na Uberlíndia teve que retornar à condição semiclandestina, quando passou a trabalhar como piniqueira – lavadora de pinicos – no Motel Bahamas.
Mas a sorte lhe sorriu a passou a ser ama seca, muito seca, do seco rebento do vampirão seco que imperava na Uberlíndia e que por ser muito velho deixava a Imperatriz na maior secura.

Dali para ser ela mesma a Rainha de Copas de sempre, foi um passo, melhor ou pior ainda: agora não era apenas A Rainha De Copas havia se transformada numa hidra de sete cabeças, por isso era difícil identificar seu nome, ora era um nome, ora outro. Como uma besta apocalíptica gritava após ter conseguido mandar prender um sujeitinho arrogante que ousara ser maior que ela, logo ela de origem autoritária, elitista e aristocrática:

- Cortem-lhe a cabeça! Cortem-lhe a Cabeça!

- Mas Majestade, atreveu-se a lhe orientar um puxa saco que havia sido ministro da Cultura. Assim como a Bolívia não tem mar, mas tem Ministro Marinha, assim a Uberlindia tem Ministro para isso e para os vexames de sempre.

- Majestade já está um pé no saco este tal de cortem-lhe a cabeça. Muito monótono, e depois cabeça cortada é maldade pouca, acaba o sofrimento logo.
- Tem razão, rosnou a Rainha. Prendam-no.
Mas é pouco. Predam-no num espaço pequeno. Mas ainda é pouco.
Prendam-no isolado de todos.
É pouco...hummm proíbam as visitas... nem o rei de Roma, nem o rato que roeu as roupas da rainha de Roma podem visita-lo ah e não toquem mais no nome dele, em nenhum jornal, rádio ou televisão. E quem o fizer será preso e processado.
Deixem-no preso por algumas décadas. Mas se isso não quebrantar-lhe o ânimo então não tem outro jeito a não ser seguir o conto da Alice, Cortem-lhe a cabeça!

Afinal a Uberlíndia não é também chamada de o País das Maravilhas?




28 abril 2018

O Linguarudo




Conta a lenda que  o Imã Rarabishuerba era juiz sábio e  renomado na fantástica terra da Uberlíndia… . Devo confessar a vocês que sempre que leio ou que alguém fala Uberlíndia não faço a menor ideia de onde fica. Mas isso não vem ao caso. Fato é que o Imã não perdia uma causa sequer com julgamentos históricos. Certa vez condenou um camelo a pagar multa diária de 1.000.00 de dólares cada vez que ficasse parado obstruindo as calçadas da capital a cidade de Isoilin Ibn Sharmuta.

Mas daquela vez o caso estava difícil, não conseguia meter na cadeia o Cidadão Sin Saladin acusado de haver comido a própria língua.
Há cinco anos tentava provar que a língua havia sido devorada pelo próprio acompanhado de homus tarrine, coalhada seca  e zatar. Mas não conseguia provas. Sin Saladin continuava a falar como se sua língua continuasse a existir.
Os interrogatórios se sucediam:

- O sr comeu a própria língua.
-Não sr se tivesse comido não estaria falando.
- É um truque o sr pode estar falando pelos cotovelos. Pelo que consta nos autos  O sr não tem língua.
- Tenho sim, veja, e Sin Saladin botou pra fora quase trinta centímetros de língua.
Rarabishuerba ficou indignado
- O sr está debochando deste tribunal, está mostrando a língua fazendo careta para a minha majestade. O que me consta é que o sr não tem língua logo ao mostra-la passa a ser acusado também de falsidade ideológica e desacato à autoridade.
-  O sr disse que eu não tinha língua e quis lhe mostrar.
_ O sr não tem língua, posso vê-la, mas sei que não tem. Tenho três testemunhas, que depois de dois anos de tortura na solitária, deixamos eles com língua para confessaram de viva voz  que viram o sr mastigando a própria língua durante a exposição de Aranhas Cabeludas no Museu Bahamas.
-Não era minha língua, eu estava mascando balas Juquinha, e não foi no Museu Bahamas, foi numa visita à Sagrada Gruta Molhada.
-  Não vem ao caso. A literatura jurídica dá outro nome à Gruta Molhada.
- Por acaso seria...xibiu?

Dito isto o réu sorriu e pôde-se ver sua indecente língua.
Rarabishuerba estava desesperado, precisava de todo jeito meter aquele linguarudo na cadeia.  Cinco anos tentando provar que o reu havia comido a própria língua, nestes cinco anos conhecera tudo sobre línguas: língua ao molho madeira, língua falada, língua escrita, língua morta, língua pátria, língua estrangeira, beijo de língua, beijo técnico, língua de vaca, língua da sogra, chocolate língua de gato, e até cunilíngua, mas a língua de Sin Saladin continuava ali.

Não havia outro jeito. Ele era o Santo Inquisidor e nunca havia perdido um caso. Proferiu a sentença: Sin Saladin, comeu a própria língua com grão de bico no Restaurante Acepipes das Arábias, condeno o réu à pena máxima, não tenho provas, mas tenho convicção.
Dito isso limpou a própria baba raivosa que escorria de sua boca usando a sua própria língua.
O réu foi para a cadeia, mas para desespero de Rarabishuerba a língua de Sin Saladin tornou-se a língua do povo.

Assim conta a lenda...







27 abril 2018

O Acampamento

O Santo Pato



Ethelberg Von Reinstroff é um homem de bem, um cidadão correto, branco como a neve, morador na Uberlindia meridional,  e religioso adorador de um totêmico pato amarelo. Levava uma vida recatada e gostava de andar em sua rua sentindo o cheiro matinal das araucárias, que os vulgos chamavam de pinheiros. Experimentava uma paz, um silêncio, uma segurança que só se consegue entre seus iguais.

Tudo isto desmoronou desde o dia em que um grupo de gente estranha, muito estranha,  acampou na sua rua.  Mais precisamente na pracinha das araucárias.

Era um tal movimento de Ocupa o Pinhal. Que desde seu titulo já éra uma ameaça à moral e bons costumes, porque Ocupa o Pinhal dito de forma rápida era o cu po pinhal.
Mas o tal acampamento era um  protesto que exigia a imediata contratação de tradutores de javanês, o javanês  havia se tornado a língua  oficial da  elite da Uberlíndia incompreensível para a maioria do povo.
Fato é que  a partir deste acampamento acabou a paz e  sossego do cidadão Ethelberg Von Reinstroff e seus vizinhos.

E ele explica que se sente intimidado toda vez que precisa passar pela rua para entrar ou sair de casa.
Sua esposa, a sra Gerda Von Reinstroff und  Reisntroff  também denunciou: Estamos tendo dificuldade de locomoção. Muitas vezes nós temos que andar algumas quadras a mais para entrar pelo acesso correto.

O vizinho deles sr Frederic Von Ribbentrop ajuntou: Ocorre que passar pelo meio dos manifestantes a gente se sente intimidado porque o pessoal vai saindo da frente devagarzinho, e eles vão te encarando, vão olhando para você de uma forma intimidadora, só porque você não é javanês.  muitos deles vão colocando a mão gordurosa no nosso automóvel, como essa gentalha, de uma cor fulva, cabelos em desalinho, e sapatos sujos se atrevem a tocar em nossos automóveis?

Está terrível disse a senhora: até meu cachorro entrou em depressão, e quase morreu depois que essa chusma deu a ele osso de galinha para comer.

Ethelberg prosseguiu: Ontem mesmo quando eu fui passar uma das pessoas ficou me encarando e dizendo que eu era javanês… e todo mundo ficou olhando para mim, eu não quero esta gente me olhando. Vou entrar com um pedido na Justiça proibindo esta gentalha da Uberlindia Setentrional de ficar me olhando. Não quero essa gente de cabeça chata e sotaque estranho me olhando. Incomoda muito.

É uma gente suja. Queremos essa gente fora da Uberlindia, queremos nossa Uberlíndia geneticamente  limpa, em paz, onde à noite possamos nos sentar em volta do fogo e assar marshmellows, cantar marchas ao som de nossas panelas, e reverenciar  nosso deus o santo pato amarelo.

Ainda bem que a Uberlínia é só uma fantasia deste autor.








  



26 abril 2018

Abominação





Abominação!!! Abominação!!! Gritava seu  Eustáquio naquela madrugada do subúrbio.

Acho a palavra forte, e fui entende-la melhor: abominação é algo repulsivo, execrável.
E seu Eustáquio cujo estágio cristão  era tão fundamentalista que não chegara  sequer ao Novo Testamento, baseando-se ainda no livro dos Levitas, gritava desesperado Abominação!

A abominável criatura era seu próprio filho Aristáquio, deitado com outro homem como se fosse mulher.

A ideia inicial partira do próprio Eustaquio. Aposentado, soube da chegada de um novo presidente para a antiga empresa onde trabalhara por décadas. O executivo era um rapaz jovem, bem apessoado, que chegara de Curitiba, o que por si só era uma excelente referência. 

Seu filho Aristaquio estava com 18 anos e Eustáquio pusera na cabeça que estava na hora de arranjar-lhe um emprego. Então arranjou-se  a sagrada família: convidaram o rapaz, Adamáquio, para um jantar em casa. Onde toda a familia estaria presente honrando o convidado e apresentando Aristáquio formalmente para ver se arranjava um emprego para o caçula.

Jantaram como janta uma família cristã: orações, carne assada, conversas amenas, sobremesas servidas, licor de pequi,  até que chegou a hora do chefinho curitibano ir embora, mas aí caiu uma providencial tempestade , dessas de inundar o bairro. Adamáquio não conseguiria sair. Eustáquio, o patriarca,  não se fez de rogado:

- Dorme aqui, amanhã o senhor vai. Pode dormir no quarto de Aristachio, tem duas camas.

Convite aceito, toda a família recolheu-se.
Mas, quarenta minutos depois, silencio absoluto Eustaquio resolveu ir ao quarto do filho, sabe-se lá por que. Porta entreaberta, luz do corredor acesa, quarto no escuro. Abriu a porta e a luz do corredor incidiu como um refletor na cena mais abominável para aquela sagrada família: Eustáquio e Adamáquio enlaçados no maior love.
Uma gritaria, um corre corre, um mata mata. Toda a família espremida no corredor gritando como galinhas diante de um gambá.  Pega que é o capeta! Chama o Pastor Malafáquio ! Abominação ! gritou Eustáquio, Aristaquinho com quem você criou este vício abominável?

E Aristachio com a maior liberdade da chamada geração cristal implodiu a família: com Tio Petraquio! Desde meus dez anos de idade.

A mãe desmaiou, as irmãs gritavam histéricas e o pai Eustáquio proferiu a sentença fatal: - Fora desta casa, imediatamente os dois! Fora! Fora , abominações! Vão para o Inferno! Mas saiam já!

O casal recém formado saiu sob a chuva, sob raios e trovoadas, mas no dia seguinte sob o sol tropical da Uberlíndia Aristáquio estava empregado como Assessor da presidência na firma de Adamáquio. Um ótimo salário  uma alta posição, que abre caminho para que todos os domingos o casal antes abominável seja recebido para almoço na casa de Eustáquio, que orgulhoso do filho que fez carreira, não toca mais no assunto daquela noite, e ainda brinda a amizade dos dois, dizendo: a família é tudo!




25 abril 2018

Coisas de Pobre





Depois que o País foi jogado de vez na incerteza e na barbárie, e que a cadela do fascismo está mais assanhada e protegida que nunca, só resta a este cronista esquecer o que outrora foi uma Nação e hoje apenas um ajuntamento de pessoas, e falar de coisas amenas, ou a menos sobre as pessoas que compõe este pedaço de terra.

Dois fatos desta semana marcaram minha fala de hoje, e que eu reputo como Coisas de pobre. O primeiro por ser afeto a pobre mesmo, o segundo por ser de pobre mentalidade.

Vamos ao primeiro: Dona Maria, manicure, adquiriu um imóvel popular por contrato de gaveta. A construtora cobrou-lhe uma dívida antiga à razão de dois mil reais por mês. Ela disse que ganhava 1.300,00 reais e não podia pagar assim. Procurou o Conselho de Direitos Humanos e entrou com um processo: pobre, mas honrada queria pagar, mas um montante compatível com sua renda. Pois o juiz, com muita classe, e confirmando sua classe,  não só indeferiu sua petição alegando que ela não era a verdadeira dona do imóvel – contrato de gaveta – como ainda aplicou-lhe uma multa de 20.000,00. O que torna a sentença contra uma pobre de Cristo senão cruel, ao menos ridícula. Cabe recurso. Que custará mais tempo e dinheiro –  para os não pobres, tempo é dinheiro.

O segundo caso foi o de uma madame que resolveu festejar seu niver numa dos mais chiques restaurantes do Rio. Perguntou se podia levar sua própria torta. A casa assentiu. Pode trazer sua torta sim, disse a atendente com grande simpatia. Mas no final da festa a Casa cobrou cem reais pelo uso da geladeira onde ficou guardada a torta. Mentalidade pobre, tanto da casa em por ganância cobrar pela guarda, quanto da madame por não querer pagar pela torta da Casa, levando a sua própria, o que a torna, pode-se chamar uma marmiteira de luxo.

Cabe recurso na Justiça que dará naturalmente ganho de causa ao mais rico, se a Casa ou a Madame. Mas um recurso que sairá mais caro que se a madame ficar calada e morrer nos cem merréis pelo uso da geladeira de ouro.

Madame, como a manicure pode recorrer ao Conselho dos Direitos Humanos declarando que ela, que depois de tantas plásticas tem a cara mais torta que a própria torta, tem o direito humano de comer a torta dela, com sua boca torta, em qualquer lugar sem pagar por isso.
Sei que são dois motes diferentes, mas com certeza justificam o título: coisas de pobre.
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24 abril 2018

O Faquir e o Jejum

Silki, o Faquir brasileiro





Quando eu era menino havia um faquir.
Era um faquir mesmo, com turbante e tudo. Lembro que ele uma vez ficou quarenta dias jejuando. Ele não disse , mas hoje, quando vejo mais gente, sobretudo gente da Lei,  com vocação para faquir, acreditando mais no jejum que na Constituição começo a  ter a certeza que o faquir da minha infância jejuava para derrubar o Juscelino da Presidência.

Não deu certo , nem o
jejum, nem o faquir,  que sumiu depois disso. Soube que apareceu anos mais tarde num cirquinho de pano de roda em Rio das Almas  engolindo fogo e jejuando pela família hetero top e contra a chegada do homem na Lua.

Hoje o faquir de antanho dedica-se a provar com um power point que o homem nunca chegou na lua, graças ao seu jejum.
Diz ele: 
- Aquilo tudo foi montado num estúdio de Hollywood. Meu jejum é poderoso. Muitas coisas que jamais aconteceriam aconteceram só por causa do seu jejum.

Afirma que graças ao seu jejum, e só o dele, de mais ninguém o papel higiênico passou a obedecer as marcas de corte certinhas.
Que graças ao seu jejum o óleo de soja substituiu a banha nas cozinhas de todo o País.
Também uma vez foi chamado às pressas para jejuar e conseguir que o Chile desaparecesse e a Bolívia chegasse até o Pacífico. Mas foi derrotado por um pão de mel que ele não resistiu e comeu com o prazer orgástico de quem assedia  uma galinha. A Bolivia sifu, derrotada pela gula do faquir.

Jejum é coisa séria. É praticado por povos de todo o mundo, como no Brasil, um antigo País coim uma antiga civilização, ambos já desaparecidos, dizem até que era uma tal Atlandida que foi submersa por um colossal tsunami de bosta de mulas e jegues.
Diz a lenda que durante séculos o povo daquele extinto País jejuou, sobretudo os pobres, os bem pobres eram então a maioria da população e fazia uma corrente nacional de jejum cujo objetivo era  aumentar a riqueza e os bens e propriedades de meia dúzia de banqueiros e milionários que ficavam ainda mais milionários. E o jejum deu certo, por séculos  e séculos amém. Os ricos cada vez mais ricos e os pobres felizes, cada vez mais pobres.

Até o dia em que apareceu um falso messias e distribuiu comida para os pobres esfomeados que não resistiram ao pão de mel de Garanhuns e comeram. Com a quebra do jejum os ricos começaram a empobrecer.

Então contra atacaram. Terceirizaram o jejum. Chamaram um bonitinho predileto de Deus para jejuar por eles, já que eles mesmo não se metem em público a dizer asnices em nome do Todo Poderoso.

O novo faquir prometeu que seu jejum vai levar à prisão o falso messias, afirmou com procuração passada no cartório da Uberlindia que Deus é apaixonado por causas que metem na cadeia quem ousa lutar pelos pobres e oprimidos, pelos simples e pelos humildes.

O faquir afirmou que Deus também atende pelo codinome de Seu Coisa, às vezes seu coisinha e é proprietário de uma rede de lojas varejistas que vendem roupas femininas e para cama, mesa, banho e jejuns prolongados.

O novo faquir fez estas declarações no domingo de Páscoa para mostrar ao Mundo seu espírito cristão,  caritativo e justo. Sua próxima proeza será ascender aos céus numa nuvem rosa e pairar de braços abertos em cima da Penitenciária da Papuda.

Mas isso já será em outro jejum. Provavelmente depois de ter alta do Hospício Central da Uberlindia.

23 abril 2018

O Inocente


A o fundo o sr. Karsteberg entre amigos, quando jovens.



O senhor Karstenberg era o que se podia considerar um homem honestíssimo.
E suas amizades sempre pautaram também pela suprema honestidade. Não entendia agora, já ancião, a prisão de seus mais íntimos amigos por corrupção nem a ameaça de abertura de seu sigilo bancário e de sua prisão pessoal.

Só podia ser uma infundada perseguição, dado o seu valor intelectual e o riquíssimo legado que deixaria para a Uberlíndia, outrora uma Nação e agora por culpa de outros apenas um pedaço de terra com gente dentro.
Perseguição, claro.

As acusações eram as mais infundadas. Desde uma que mencionava  o roubo de uma sonda urinária de um paciente ao lado seu leito na UTI até uma visita noturna ao banco de sangue do hospital para apropriar-se de sangue fresco destinado a pacientes graves.
Acusavam-no de ter fechado os portos às nações amigas, e aberto os portos às ações dos amigos.

Sua saúde estava debilitada  com as acusações; o sr Karstenberg já não saia de casa, já não aparecia em público acometido do que o seu médico particular Dr Abdelmassinha diagnosticara como o Mal de HansTemer, uma doença rara, que acometia sobretudo vice reis, vice governadores, e vices de merda, que se manifestava com os sintomas em que o doente se sentia um rato e não saía à ruas com medo de ser devorado pelos cachorros da vizinhança. A cachorrada era uma matilha que agora, mais esfomeada que nunca por cargos, propinas, benesses, e nacos de carne popular, atiçada com as acusações controlava de vez o quarteirão que ia da Padaria e Confeitaria Congresso até a cerca da Clínica Jaburu Perneta, uma clínica destinada ao tratamento de personalidades medíocres que se julgavam acima de Deus.

Karstenberg passava agora os dias amuado, calado, paranoico mesmo. Uma senhora dirigindo um velho e gasto Dodge Dart rondava sua casa com aquele alto-falante de vender pamonhas  gritando: tu não me escapas! Tu não me escapas!! Aquilo era terrível. Ele o mais honesto dos honestos, o mais justo dos justos, havia até pensado em fazer o papel de  Moyses no filme os Dez Mandamentos agora ameaçada a sua reputação com acusações vingativas, que surgiram desde o dia em que ele negara uma colherada de sorvete Dagewm Haas a uma camareira do Palácio, a sra. Ana Amélia do Passo Fundo. Assim chamada porque quando caminhava o peso dos seus encostos era tanto que seus passos afundavam a calçada por onde passava. Muito embora todos jurassem que aquela não era Ana Amélia e sim o fantasma de Robin Williams, uma Babá quase perfeita,  assombrando o castelo nas madrugadas, a ponto do sr Karstenberg dormir trancado dentro  de uma colheitadeira de soja.

Apesar do desespero e do legado que deixaria à Nação o ingrato  povo da Uberlíndia continuava como sempre : casando e  andando pro que acontecia na Capital , a cidade de Shit Roll, que os nativos insistiam em nacionalizar o nome chamando-a de Rola Bosta.

Foi então que Karstenberg percebeu que nada daquilo era real, ele era apenas uma personagem de uma série da  Notflit chamada de o Bananismo, e aquele era apenas o piloto de muitos capítulos  de violência, corrupção, e golpes baixos que viriam com o correr dos próximos episódios.

Mas uma coisa ninguém podia negar assistindo àquele piloto: o Sr Karstenberg era um canastrão como nunca houvera antes na História da Uberlíndia.

O grito unanime ecoava pelos ares: canastrão!!!